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Sumário

Padrões Alimentares da Obesidade
Uma Nova Abordagem

O estudo dos Padrões Alimentares da Obesidade oferece novos horizontes para tratamentos mais eficazes da doença e com resultados sustentáveis a longo prazo.

Desta maneira, a nova abordagem permite aos profissionais de saúde escolherem terapias de acordo com as necessidades individuais de cada paciente.

Atualmente um dos grandes desafios no tratamento da Obesidade é o chamado Efeito Sanfona — o reganho de peso após um período de emagrecimento.

Dentre as causas desse fenômeno estão as dietas muito restritivas, orientações alimentares que não consideram as preferências e hábitos alimentares de cada pessoa.

A melhor dieta é aquela que a pessoa consegue fazer e manter sem tornar-se um fardo para a sua rotina.

A Importância dos Padrões Alimentares no Tratamento da Obesidade

O profissional médico ou nutricionista que se propõem a tratar Sobrepeso e Obesidade precisam conhecer o Padrão Alimentar do seu paciente.

Acima de tudo vemos claramente que quando o tratamento respeita a individualidade, é mais aceito e confortável ao paciente , os resultados são melhores e mais duradouros. 

Em outras palavras, não teremos o mesmo resultado  orientando a mesma dieta para uma pessoa que tem muita fome e come grandes quantidades em apenas duas refeições ao dia e para uma outra que come pequenas porções de doces, bolachas e salgadinhos várias vezes ao dia.

Posto que a obesidade é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma epidemia global e afeta mais de 650 milhões de adultos no mundo é necessário e urgente desenvolvermos novas estratégias para seu tratamento.

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), alerta que aproximadamente 22% da população adulta brasileira é obesa, e os número crescente de crianças e adolescentes afetados é alarmante.

Além disso a obesidade está associada a doenças crônicas como diabetes tipo 2, hipertensão, esteatose hepática, síndrome metabólica, e doenças cardiovasculares, tornando seu tratamento uma prioridade de saúde pública.

O Complexo Sistema de Ganho de Peso

O ganho excessivo de peso é influenciado por fatores genéticos, hormonais, neuronais e comportamentais. Décadas de experiência no tratamento da Obesidade nos mostram claramente que o mesmo tratamento não tem resultados positivos em todos os pacientes.

A individualização do tratamento a partir da compreensão dos padrões alimentares abre novas fronteiras para estratégias bem direcionadas e portanto mais bem sucedidas.

Claramente não temos resultados iguais se abordarmos da mesma forma uma pessoa que tem muita fome física e come grandes quantidades de comida em apenas duas refeições ao dia  e outra que não gosta de comida e belisca doces e petiscos ao longo do dia.

Fome Física e Fome Emocional

É preciso iniciarmos pelo entendimento de de dois conceitos importantes que são a Fome Física e a Fome Emocional.

Estas duas entidades têm mecanismos hormonais e cerebrais diferentes e levam atitudes diferentes na busca do alimento.

O Hipotálamo é a estrutura cerebral responsável por processar todos os fatores envolvidos no ato de comer.

Fatores nutricionais, hormonais , emocionais e neuronais serão coordenados para determinar qual será a conduta na busca pelo alimento.

Ou seja, a resultante de todas as informações processadas no Hipotálamo determinarão quando, o que e qual a quantidade de alimento que buscaremos.

  • Fome Física 

A Fome Física ou Homeostática é a necessidade biológica do corpo por nutrientes e energia, surge gradualmente quando o organismo sinaliza ao Hipotálamo que os estoques de energia e nutrientes estão baixos.

É desencadeada por fatores fisiológicos, como por exemplo a queda nos níveis de glicose no sangue e a produção de hormônios como a Grelina – hormônio que estimula o apetite.

Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa  tipo de fome, a Fome Física, é uma resposta normal à falta de nutrientes e pode ser saciada com qualquer tipo de alimento.

Ignorar a fome física por longos períodos pode levar a comportamentos alimentares desordenados, como comer em excesso quando finalmente se alimenta.

  • Fome Emocional

Diferente da fome física , a Fome Emocional ou Hedônica é desencadeada por emoções como ansiedade, irritação, tristeza, frustrações e estresse.

Em geral nessa situação de fome emocional a  busca é por alimentos calóricos e hiperpalatáveis, como doces, chocolate e fast food. Neste caso o ato de comer acalma, acolhe e ajuda a lidar com essas emoções.

Alguns estudos indicam que esse comportamento está relacionado ao sistema de desejo-recompensa do cérebro e pode criar um ciclo vicioso que nos quadros mais graves levar ao Transtorno de Compulsão Alimentar.

Tipos de Padrões Alimentares da Obesidade

Os Padrões Alimentares mais comuns entre pacientes obesos incluem:

    1- Hiperfágico Prandial:

    Consiste no comportamento repetido de ingerir grandes quantidades de alimento (comportamento volumétrico).

    Ocorre a ingestão de volumosas quantidades de comida (pratos grandes) nas principais refeições , ultrapassando os limites da normalidade.

    Está associado a desregulação dos mecanismos de saciação, com incapacidade de controlar a quantidade de alimentos consumida.

    Comumente são pessoas que não comem fora dos horários das refeições habituais.

    Pode ser desencadeada pelo fome física, mas frequentemente a hiperfagia (comer muito) resulta de resposta a estímulos emocionais, situações de estresse, e muitas vezes é seguida por sentimentos de culpa e arrependimento.

    2- Comer Emocional:

    Caracteriza-se pelo desejo de comer como uma resposta a emoções, e não à Fome Física.

    Diferente da fome física, que surge gradualmente e pode ser saciada com qualquer tipo de alimento, a Fome Emocional geralmente é específica, como “fome de chocolate”, “fome de pizza” ou ” fome de coxinha” por exemplo.

    Comumente leva o indivíduo a buscar alimentos hiperpalatáveis ou seja, saborosos, fáceis de comer e ricos em calorias, com excesso de gordura, açúcar ou carboidratos como uma forma de conforto ou recompensa, resume-se apenas ao desejo de comer pelo prazer.

    Pessoas que convivem com a Fome Emocional frequentemente relatam que comem em resposta a sentimentos como estresse, ansiedade, tristeza ou tédio, o que tem por desfecho a criação de um ciclo de alimentação descontrolada.

    Nesses momentos não há interesse em comer alimentos saudáveis, nutritivos ou que exigem preparo, mas sim um junk food, chocolate, pizza etc.

    A fome emocional ocorre em um ciclo descrito como:
    • liking = são pessoas que tem como parte das suas características 0 prazer em comer
    • wanting= o prazer em comer alimenta o desejo e a motivação de repetir o comportamento de comer
    • learning = aprendizado de quais são os alimentos que trouxeram mais prazer

    Outro comportamento descrito diretamente ligado ao ciclo do Comer Hedônico ou Fome Emocional  é chamado de  “craving”  ou “fissura” .

    Estudos recentes mostram que o “craving” está relacionado à desregulação do sistema de recompensa do cérebro. Neste caso há recorrente busca por determinados alimentos que provocam uma sensação temporária de prazer.

    Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a fome emocional está intimamente relacionada com transtornos alimentares, como a compulsão alimentar, e pode ser um fator agravante da obesidade.

    A longo prazo, a fome emocional pode dificultar o controle do peso e a adesão a hábitos alimentares saudáveis já que as emoções acabam sendo o principal gatilho para o comportamento alimentar.

    O tratamento da fome emocional deve ser amplo e incluir estratégias, nutricionais, medicamentosas e  psicológicas, como a terapia cognitivo-comportamental, que ajuda o paciente a reconhecer e lidar com esses gatilhos emocionais sem recorrer ao comer descontrolado.

    3- Síndrome do Comedor Noturno:

    A principal característica neste padrão de comportamento alimentar é o consomo de grandes quantidades de alimentos no período da noite, especialmente após às 19h.

    São pessoas relatam que ao final do dia, após relaxarem das suas atividades sentam-se para ler ou assistir televisão e consomem grandes quantidades de comida ou de petiscos.

    Sabidamente este padrão esta associado, a longo prazo, a um maior risco de desenvolver obesidade e diabetes.

    4- Beliscador:

    Pessoas com hábito beliscador costumam ingerir pequenas e repetidas porções de comida, doces ou petiscos ao longo do dia, sem planejamento e sem ser, na maioria das vezes, em decorrência de fome física.

    Acabam por não ter Fome Física porque não ficam tempo suficiente sem comer nada até que ela apareça.

    Dificilmente as pessoas com esse padrão têm consciência de quantas calorias ingerem ao longo do dia.

    Os alimentos consumidos podem ser doces ou de salgados, mas geralmente de alimentos hiperpalatáveis, saborosos , hipercalóricos, pobres em nutrientes e fáceis de comer , sem a necessidade de preparos elaborados.

    Doces e salgadinhos, podem ser consumidas de forma inconsciente enquanto se realiza outras atividades, como assistir televisão ou trabalhar.

    5- Padrão Caótico:

    Extremamente comum, neste caso são pessoas que não tem um padrão alimentar dominante. Variam o comportamento alimentar ao longo do tempo, por vezes se comportam de forma beliscadora e hiperfágica num mesmo dia por exemplo e depois e com frequência ficam longos períodos em jejum.

    Em geral a Fome Emocional é a base deste comportamento, que se manifesta em situações de estresse e ansiedade.

    6- Compulsão alimentar:

    O quadro é caracterizada pela ingestão descontrolada de grandes quantidades de alimentos em um curto espaço de tempo, mesmo sem fome física.

    Ocorrem  episódios em que o indivíduo perde todo o controle sobre a quantidade de alimento, faz muitas misturas (doce->salgado->doce), ingere alimentos que nem estavam ainda preparados para serem consumidos, por exemplo arroz cru, e muitas vezes o fazem escondido.

    A pessoa tem a consciência que aquilo é um exagero mas não consegue parar de comer, perde totalmente o controle, mesmo sem fome física.

    Não é raro que os momentos de compulsão sejam seguidos de arrependimento e vergonha.

    Devemos aqui ter especial atenção porque a depender da frequência e duração das crises, especialmente se seguidas de comportamento purgativo como vômitos, uso de laxantes e diuréticos pode tratar-se de Transtorno de Compulsão Alimentar ou Bulimia.

    Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a compulsão alimentar tem causas multifatoriais, que incluem questões emocionais, psicológicas e hormonais.

    Pacientes que sofrem com isso frequentemente relatam que utilizam a comida como uma forma de lidar com emoções negativas, como ansiedade, estresse ou depressão.

    A falta de controle sobre a alimentação pode gerar um ciclo vicioso de ganho de peso e insatisfação com a autoimagem, de forma a agravar  ainda mais o transtorno.

    Além disso esse comportamento alimentar  afeta diretamente  a saúde metabólica,  e aumenta o risco de doenças como diabetes tipo 2, hipertensão e dislipidemias.

    O comportamento alimentar compulsivo também interfere no equilíbrio hormonal do apetite, compromete a regulação de hormônios como a grelina e a leptina, que são responsáveis por controlar a fome e a saciedade respectivamente.

    A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) também enfatiza a importância de reconhecer a Compulsão Alimentar como uma condição que vai além de uma simples “falta de força de vontade”.

    É um transtorno mental sério que exige atenção médica especializada e tratamento multidisciplinar.

    Tratamento da Obesidade: Um Enfoque Multidisciplinar

    O tratamento da obesidade deve sempre considerar os aspectos nutricionais, emocionais e comportamentais.

    Terapias psicológicas, como a terapia cognitivo-comportamental (TCC), podem ajudar a identificar os gatilhos emocionais que levam à fome emocional e compulsão alimentar.

    As mudanças no estilo de vida e acompanhamento nutricional são essenciais também, é preciso que o ambiente “obesogênico ” seja desfeito e que torne-se um facilitador de hábitos mais saudáveis.

    Com frequência observamos pacientes que trazem hábitos alimentares familiares, aprendidos desde a primeira infância e que não vêm outra forma de lidar com o alimento.

    Quando apresentamos novas perspectivas que também são prazerosas e satisfatórias conseguimos grandes mudanças no padrão alimentar e no peso.

    Recentemente, novos e melhores medicamentos têm surgido para atuar em diferentes frentes relacionadas ao ganho de peso.

    Vemos a possibilidade de oferecer aos nossos pacientes medicamentos mais eficazes e mais seguros.

    No entanto é importante lembrar que a obesidade é uma doença crônica, e o seu tratamento e acompanhamento deve ser continuado.

    Se ao atingirmos a meta de peso e controle metabólico simplesmente interrompermos as estratégias que nos trouxeram a este resultado é muito provável que voltaremos ao ponto inicial ou pior.

    Conclusão

    Quando nos debruçamos sobre as diferenças comportamentais e emocionais que levam aos erros alimentares, claramente vemos a necessidade de abordagens individualizadas.

    As mudanças de estilo de vida  são fundamentais , mas sabemos que em muitos casos precisamos de  medicamentos que nos auxiliem na melhora metabólica , na regulação hormonal, na sinalização da fome, na ansiedade , e no sistema de desejo e recompensa.

    A psicoterapia tem grande valor na melhora dos fatores desencadeantes de gatilhos que levam a comportamentos alimentares ruins.

    O tratamento da Obesidade deve ser abrangente, não podemos buscar uma solução simplista para uma doença tão complexa!

    O apoio de uma equipe multidisciplinar é fundamental para oferecer um tratamento individualizado e eficaz.

    Contudo não podemos perder de vista a constatação de que a Obesidade é uma doença crônica e como tal precisa de tratamento continuado, a fim de reduzir a chance de reganho de peso.

    Cuidar da sua saúde significa ter uma vida mais longo e certamente mais feliz!

    contatos Dra Ana Lúcia Gomes