Wegovy reduz consumo de álcool em pacientes com obesidade, aponta estudo clínico

Medicamento usado para obesidade mostra potencial para diminuir o consumo de álcool, mas evidências ainda são iniciais e fora da indicação em bula.

Por Caio Batelli

6 mai 2026

Foto da caneta Wegovy de 2.4 mg

Um estudo clínico publicado na revista The Lancet trouxe um achado relevante para a endocrinologia e para o tratamento de dependências: a semaglutida na dose de 2,4 mg semanais, princípio ativo do Wegovy, foi associada a uma redução significativa no consumo de álcool em pessoas com transtorno por uso de álcool e obesidade.

A pesquisa avaliou pacientes que buscavam tratamento e mostrou que, ao longo de 26 semanas (cerca de 6 meses), o grupo que recebeu semaglutida apresentou uma queda mais acentuada nos chamados “dias de consumo pesado” em comparação ao placebo. A redução foi de cerca de 41 pontos percentuais em relação ao início, contra aproximadamente 26 pontos no grupo controle, indicando um efeito adicional relevante do medicamento.

Efeito além do peso

A semaglutida já é conhecida por seu uso no tratamento da obesidade e do diabetes, atuando como agonista do receptor de GLP-1. Esse tipo de medicamento influencia áreas do cérebro ligadas ao apetite e à recompensa, o que ajuda a explicar por que também pode impactar comportamentos relacionados ao consumo de álcool.

O estudo reforça uma linha crescente de evidências científicas: medicamentos dessa classe podem interferir nos mecanismos de dependência, reduzindo tanto o desejo quanto o consumo efetivo de bebidas alcoólicas. Além disso, também foram observadas melhorias em diversos desfechos secundários, incluindo redução do consumo total de álcool, diminuição do número de bebidas por ocasião e melhora em indicadores de saúde geral.

Resultados consistentes em pacientes em tratamento

Participaram do estudo 108 adultos com diagnóstico de transtorno por uso de álcool de moderado a grave e obesidade (IMC acima de 30). Todos receberam acompanhamento com terapia cognitivo-comportamental, além do tratamento com semaglutida ou placebo.

Ao final do acompanhamento, 81% dos participantes completaram o protocolo. Os dados mostraram que o uso da medicação esteve associado não apenas à redução do consumo pesado, mas também a efeitos positivos em parâmetros clínicos e comportamentais relacionados ao álcool.

Outro ponto importante foi a segurança: os efeitos adversos foram, em geral, leves a moderados e transitórios, principalmente sintomas gastrointestinais, padrão já conhecido desse tipo de medicamento.

Foto de um homem com um copo de whiskey na mão, representando o alcoolismo

Novo caminho para tratar o alcoolismo, mas ainda em fase inicial

O transtorno por uso de álcool é uma condição crônica e recorrente, responsável por cerca de 5% das mortes no mundo a cada ano. Apesar disso, existem poucas opções medicamentosas aprovadas até hoje, o que torna a busca por novas abordagens terapêuticas uma prioridade.

Os resultados deste estudo indicam que a semaglutida pode representar uma nova estratégia promissora, especialmente para pacientes que também apresentam obesidade. No entanto, é importante destacar que se trata de um estudo relativamente pequeno, com 108 participantes e duração de apenas 6 meses, o que ainda limita a generalização das conclusões.

Além disso, o uso da semaglutida com o objetivo de reduzir o consumo de álcool ainda não faz parte das indicações oficiais em bula. Ou seja, esse possível benefício está em fase inicial de investigação científica e ainda depende de estudos maiores para confirmação.

Com base nas evidências atuais, o uso de agonistas de GLP-1 desponta como uma possível nova frente no tratamento do alcoolismo, ampliando o papel desses medicamentos para além do controle metabólico, mas, por enquanto, como uma hipótese promissora que começa a ganhar força na literatura médica.

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