Uso injetável de GHK-Cu cresce nas redes sociais apesar da falta de aprovação regulatória

Estudos apontam potencial do GHK-Cu em processos como regeneração da pele, produção de colágeno e cicatrização, mas especialistas alertam que o uso oral e injetável da substância não possui aprovação regulatória e pode trazer riscos à saúde.

Por Caio Batelli

19 jun 2026

Foto do GHK-Cu

A popularização de substâncias associadas à longevidade e à regeneração celular tem chamado a atenção de especialistas em saúde. Entre elas está o GHK-Cu, um peptídeo que vem sendo amplamente discutido em redes sociais e fóruns voltados à estética, mesmo sem aprovação para uso oral ou injetável em humanos no Brasil ou nos Estados Unidos.

O interesse pelo composto não surgiu por acaso. Pesquisas científicas vêm investigando há décadas os possíveis efeitos da molécula sobre cicatrização, reparo tecidual, inflamação e envelhecimento da pele. Os resultados observados em estudos laboratoriais e em formulações tópicas despertaram atenção dentro e fora da comunidade científica, impulsionando a procura pelo produto.

O problema, segundo especialistas, é que a crescente demanda abriu espaço para a venda de versões injetáveis comercializadas sem registro sanitário. Em muitos casos, os produtos são oferecidos em marketplaces com a justificativa de que seriam destinados exclusivamente à pesquisa laboratorial, embora relatos publicados por usuários indiquem utilização direta em seres humanos.

A preocupação aumenta porque não existe controle sobre quantas pessoas estão utilizando essas substâncias nem garantias sobre a procedência, pureza ou composição dos produtos vendidos pela internet. Além disso, a ausência de aprovação regulatória significa que não há comprovação suficiente de segurança para o uso humano dessas formulações.

O que a ciência realmente sabe sobre o GHK-Cu

O GHK-Cu é um peptídeo formado pelos aminoácidos glicina, histidina e lisina ligados ao cobre. A molécula é encontrada naturalmente no plasma humano e seus níveis tendem a diminuir com o envelhecimento. Estudos indicam que a concentração plasmática pode cair de aproximadamente 200 ng/mL aos 20 anos para cerca de 80 ng/mL aos 60 anos.

Nos últimos anos, revisões científicas reuniram evidências de que a substância participa de mecanismos relacionados à produção de colágeno, reparo do DNA, regeneração dos tecidos e controle de processos inflamatórios.

Pesquisas também apontaram que o peptídeo pode estimular componentes importantes da matriz extracelular da pele e atuar em enzimas envolvidas na remodelação tecidual durante a cicatrização. Em modelos animais, foram observados aumento da formação de vasos sanguíneos, aceleração da cicatrização e redução de marcadores inflamatórios.

Outro aspecto que despertou interesse dos pesquisadores foi a capacidade da molécula de influenciar a atividade de milhares de genes humanos relacionados ao crescimento nervoso, à resposta antioxidante, ao reparo celular e à inflamação.

Há ainda investigações experimentais envolvendo câncer colorretal metastático. Os estudos sugeriram supressão de genes associados à progressão tumoral e reativação de mecanismos de morte celular em células cancerígenas. Os próprios pesquisadores, entretanto, destacam que essas observações são preliminares e ainda precisam ser confirmadas em estudos clínicos em humanos.

Resultados positivos existem, mas principalmente em produtos tópicos

Embora os estudos tenham produzido resultados considerados promissores, as evidências mais consistentes até o momento envolvem o uso tópico da substância.

Revisões científicas analisaram pesquisas com cremes e séruns contendo GHK-Cu voltados ao tratamento dos sinais do envelhecimento cutâneo. Os trabalhos relataram melhora da elasticidade, firmeza, densidade e textura da pele, além da redução de rugas e linhas finas.

Em um dos estudos avaliados, 71 mulheres utilizaram um creme facial contendo o peptídeo durante 12 semanas, apresentando melhora nos sinais visíveis de envelhecimento e na aparência geral da pele.

Especialistas ressaltam, porém, que esses resultados não autorizam conclusões sobre o uso oral ou injetável do composto. Além disso, os benefícios observados em cosméticos costumam depender da formulação utilizada, da concentração do ativo, da estabilidade da molécula e das características individuais da pele.

Foto de um rosto com pele lisa

Aplicação injetável envolve riscos adicionais

Enquanto os cosméticos atuam externamente, a administração por injeção exige padrões rigorosos de qualidade, esterilidade, estabilidade e controle de dose.

Sem essas garantias, aumentam os riscos de complicações como dor, edema, processos inflamatórios, infecções, abscessos, formação de nódulos, necrose, reações alérgicas e efeitos sistêmicos imprevisíveis. Também existe a preocupação com possíveis contaminantes químicos e outros problemas decorrentes da fabricação inadequada dos produtos.

Anvisa afirma que produtos não possuem registro

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que produtos comercializados como GHK-Cu, BPC-157, TB500, CJC-1295 e Ipamorelina não possuem registro junto à agência. Também não foram localizados medicamentos aprovados contendo esses princípios ativos.

Segundo a Anvisa, produtos cosméticos são destinados exclusivamente ao uso externo, o que significa que não existem cosméticos injetáveis. Qualquer produto comercializado dessa forma é considerado irregular.

A agência reforça ainda que substâncias manipuladas só podem ser produzidas mediante prescrição individualizada e em estabelecimentos devidamente regularizados. Produtos vendidos em larga escala sem avaliação de segurança e eficácia podem ser oriundos de fabricação clandestina.

O órgão também alerta que substâncias anunciadas como “experimentais” ou “apenas para pesquisa” não podem ser comercializadas para consumo humano. A ausência de avaliação regulatória impede qualquer garantia de segurança e representa um potencial risco à saúde. Além disso, a comercialização de produtos terapêuticos sem regularização na Anvisa é considerada crime pela legislação brasileira.