Novo uso da tirzepatida marca avanço histórico no manejo da Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono, reduzindo eventos respiratórios e melhorando a qualidade de vida
Por Caio Batelli
19 nov 2025

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou oficialmente, em 18 de outubro de 2025, o uso da tirzepatida (Mounjaro) para o tratamento da Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) em adultos com obesidade e casos moderados a graves da doença.
A decisão se apoia em evidências robustas do estudo SURMOUNT-OSA, publicado no New England Journal of Medicine em junho de 2024, considerado um marco no tratamento dessa condição frequentemente negligenciada e subdiagnosticada.
O estudo que mudou o paradigma
O ensaio clínico SURMOUNT-OSA avaliou 469 participantes com obesidade e apneia do sono moderada a grave, acompanhados por 52 semanas. Eles foram divididos em dois grupos:
A análise dos candidatos ocorreu em dois contextos diferentes:
O índice de apneia e hipopneia (IAH), que mede quantos episódios de interrupção ou redução da respiração ocorrem por hora de sono, foi o principal parâmetro avaliado.
Após um ano, os resultados foram expressivos:
Esses números refletem uma diminuição de cerca de 60% na gravidade da apneia, acompanhada por perda média de 18% a 20% do peso corporal, melhora da pressão arterial, redução de inflamação sistêmica (medida pela PCR ultrasensível) e melhora significativa na qualidade do sono relatada pelos próprios pacientes.
Em outras palavras, os participantes respiraram melhor à noite e viveram melhor durante o dia, com menos sonolência, mais disposição e redução dos riscos cardiovasculares associados à apneia.

Compreendendo a apneia obstrutiva do sono
A apneia obstrutiva do sono ocorre quando há colabamento das vias aéreas superiores durante o sono, provocando interrupções repetidas da respiração.
Cada pausa respiratória desperta o cérebro por breves instantes, muitas vezes sem que o indivíduo perceba, portanto, fragmentando o sono e comprometendo sua qualidade.
Os sintomas mais característicos incluem:
Estima-se que a maioria dos brasileiros com apneia do sono não saiba que tem a doença, o que é preocupante, já que o distúrbio está diretamente ligado a maior risco de infarto, arritmias e AVC.
O grau de gravidade é medido pelo IAH:
Nos estudos SURMOUNT-OSA, os pacientes tinham IAH médio de cerca de 50 eventos por hora, portanto, quadros graves. A resposta clínica à tirzepatida nesse grupo foi considerada altamente relevante, superando todas as abordagens medicamentosas testadas até então.
Terapias tradicionais e a inovação trazida pela tirzepatida
Até recentemente, nenhum medicamento havia sido aprovado especificamente para tratar a apneia obstrutiva do sono. Portanto o manejo se baseava em estratégias mecânicas ou cirúrgicas, como:
O Mounjaro surge como primeira medicação com indicação direta para Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono, logo, atuando de forma dupla, reduzindo a gordura corporal, o que diminui a compressão das vias aéreas, e melhorando o controle metabólico e inflamatório, o que impacta o tônus muscular e a função respiratória durante o sono.
Mesmo assim, é importante reforçar que a apneia do sono segue subdiagnosticada e subtratada. Muitos pacientes ainda associam o ronco a algo “normal”, sem perceber que pode ser o principal sinal de uma condição crônica e potencialmente perigosa.
Um novo capítulo no tratamento da apneia
Com a aprovação do Mounjaro, o tratamento da apneia do sono ganha um novo horizonte.
O que antes dependia exclusivamente de máquinas, máscaras e intervenções mecânicas, agora conta com uma opção farmacológica capaz de agir nas causas metabólicas da doença.
Essa mudança representa não apenas um avanço terapêutico, mas também um marco na integração entre endocrinologia e medicina do sono, oferecendo aos pacientes uma abordagem mais ampla e eficaz de dentro para fora.