Nota conjunta reforça que a testosterona só deve ser prescrita em situações específicas e alerta para riscos do uso fora das recomendações médicas
Por Caio Batelli
21 jan 2026

As principais entidades médicas do país nas áreas de endocrinologia, ginecologia e cardiologia divulgaram uma nota conjunta e, com base em evidências científicas e critérios éticos, esclareceram quando indicam o uso de testosterona em mulheres e quando contraindicam essa prática.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) e a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), existe apenas uma indicação terapêutica reconhecida para o uso de testosterona em mulheres: o tratamento do Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH) em mulheres na pós-menopausa.
Ainda assim, a prescrição só deve ocorrer após uma avaliação clínica cuidadosa e por exclusão. Antes que se considere o uso do hormônio, é fundamental investigar e tratar causas comuns da redução da libido, como queda do estrogênio, síndrome urogenital da menopausa, depressão e outros transtornos psiquiátricos, efeitos colaterais de medicamentos, especialmente antidepressivos, obesidade, além de fatores psicossociais ou relacionados ao relacionamento conjugal.
As entidades reforçam que não reconhecem a chamada “deficiência de testosterona” como causa de baixa libido em mulheres.
Outro ponto destacado no documento é que a testosterona não sofre uma redução súbita com a chegada da menopausa. O que ocorre é uma diminuição gradual ao longo da vida adulta. Além disso, não existem valores de referência validados que permitam definir uma deficiência androgênica feminina que justifique tratamento clínico.
A nota também esclarece que não há indicação de dosar testosterona para investigar valores baixos ou uma suposta deficiência hormonal em mulheres. A única situação em que a dosagem sérica é formalmente recomendada é na investigação de excesso de androgênios, como nos casos de síndrome dos ovários policísticos, tumores ovarianos ou adrenais, hiperplasia adrenal congênita e síndrome de Cushing.
Fora desses contextos, a dosagem rotineira de testosterona não tem respaldo científico.

As sociedades médicas alertam ainda que não existe no Brasil nenhuma formulação de testosterona aprovada pela Anvisa para uso em mulheres. Por esse motivo, não são recomendados implantes subcutâneos manipulados, devido à farmacocinética imprevisível e à falta de dados consistentes sobre eficácia e segurança.
O uso de testosterona fora da única indicação oficial causa diversos riscos.Por exemplo efeitos virilizantes, como acne, queda de cabelo, aumento de pelos, crescimento do clitóris e engrossamento irreversível da voz. Também há relatos de toxicidade hepática, tumores de fígado, alterações psicológicas e psiquiátricas, infertilidade e possíveis impactos cardiovasculares, incluindo hipertensão, arritmias, tromboses, embolias, infarto, AVC e aumento da mortalidade. Alterações em exames laboratoriais, como colesterol e triglicerídeos, também podem ocorrer.
O documento afirma de forma enfática que o Conselho Federal de Medicina (CFM) veda o uso de testosterona com objetivos estéticos, para melhora da composição corporal, desempenho físico, aumento de disposição ou com finalidade antienvelhecimento, e que a Anvisa não reconhece essas indicações. Essas práticas não possuem base científica nem respaldo regulatório, tanto para mulheres quanto para homens.
No posicionamento final, SBEM, FEBRASGO e SBC reforçam que a prescrição de testosterona deve ficar restrita ao tratamento do Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo em mulheres na pós-menopausa, sempre após avaliação clínica adequada. O uso sem indicação formal, baseado apenas em exames isolados ou com objetivos não terapêuticos, pode trazer prejuízos significativos à saúde.