Semaglutida sintética, biológica e genérica: entenda as diferenças entre os medicamentos

Brasil já tem nove medicamentos registrados à base de semaglutida, mas produtos não são equivalentes entre si; entenda o que muda entre Ozempic, Wegovy, Ozivy, genéricos e similares.

Por Caio Batelli

28 ago 2026

Uma pessoa segurando uma caneta emagrecedora na mão

Em menos de seis meses, o Brasil passou a ter nove medicamentos registrados com semaglutida como princípio ativo. O aumento no número de opções trouxe também dúvidas entre os pacientes, principalmente sobre as diferenças entre os produtos e sobre a possibilidade de substituir uma caneta por outra.

A questão ganhou força após a aprovação, em 17 de agosto, do primeiro genérico de semaglutida, produzido pela EMS, e do primeiro similar, o Semaclique, da Germed/BracePharma. Com novas opções chegando ao mercado, a possibilidade de pagar menos pelo tratamento passou a chamar a atenção de quem já utiliza medicamentos à base da substância.

Apesar de terem a semaglutida em comum, os produtos pertencem a categorias regulatórias diferentes. Por isso, a substituição entre eles não pode ser feita livremente e depende das regras estabelecidas para cada medicamento.

Três categorias de medicamentos à base de semaglutida

Além dos medicamentos originais Ozempic e Wegovy, o Brasil passou a contar com outros seis produtos contendo semaglutida, entre eles Ozivy, da EMS, Owozy, da Sandoz, e Semavy, da Mantecorp.

Esses medicamentos estão distribuídos em três grupos regulatórios. O primeiro é formado pelos produtos biológicos originais da Novo Nordisk: o Ozempic, indicado para o tratamento do diabetes, e o Wegovy, utilizado contra a obesidade.

O segundo grupo reúne medicamentos classificados pela Anvisa como medicamentos novos. São produtos de semaglutida sintética que precisaram demonstrar, por conta própria, sua eficácia e segurança. O Ozivy faz parte dessa categoria, assim como os outros cinco medicamentos aprovados em 29 de julho.

A classificação como medicamento novo não modifica as regras de dispensação. Esses produtos continuam exigindo receita médica em duas vias, com uma delas retida pela farmácia.

O terceiro grupo passou a existir com a aprovação do primeiro genérico e do primeiro similar de semaglutida. Nesse caso, porém, é importante diferenciar a referência de cada produto: nem o genérico da EMS nem o Semaclique são genéricos ou similares do Ozempic. Os dois têm o Ozivy como medicamento de referência técnica.

Por que é possível ter um genérico do Ozivy, mas não do Ozempic?

A diferença está relacionada à forma como os medicamentos são produzidos. O Ozempic é um medicamento biológico, produzido a partir de organismos vivos. Pela regulamentação brasileira, medicamentos dessa categoria não podem ser copiados seguindo o modelo tradicional utilizado para os genéricos.

A EMS desenvolveu uma semaglutida obtida por síntese química. Essa característica permitiu que o produto fosse registrado dentro das regras convencionais aplicadas aos medicamentos genéricos.

A possibilidade de outras empresas registrarem cópias surgiu depois que o Ozivy entrou na lista de medicamentos de referência da Anvisa, em julho. A partir disso, empresas como a própria EMS e sua coirmã Germed puderam registrar produtos baseados nele.

O genérico não recebe um nome comercial. Ele é identificado pelo próprio princípio ativo e pelo fabricante. Já o similar pode ter uma marca própria, como acontece com o Semaclique.

Imagem da caneta Ozivy, caneta de semaglutida aprovada pela anvisa

O preço pode mudar entre os medicamentos

As diferenças regulatórias também ajudam a explicar como os preços são definidos. No caso de um medicamento novo, como o Ozivy, a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos estabelece o preço por comparação com produtos considerados de referência. Nesse caso, o valor máximo foi definido tendo como comparação o Ozempic e o Wegovy.

A empresa, entretanto, pode comercializar o produto por um preço inferior ao teto estabelecido. Foi o que ocorreu com o Ozivy.

O genérico segue uma regra diferente. Pela legislação, seu preço precisa ser, no mínimo, 35% menor do que o medicamento de referência. No caso do genérico da EMS, essa referência é o Ozivy, e não o Ozempic.

Em julho, a EMS já havia reduzido o custo efetivo do Ozivy por meio de uma oferta vinculada ao programa de fidelidade da empresa. Um pacote com três canetas de 1 mg passou a custar R$ 999, o que correspondia a R$ 333 por unidade. Antes, cada unidade custava R$ 431,61 nessa modalidade.

O valor promocional de R$ 333 acabou sendo divulgado em algumas coberturas sem o devido contexto, como se representasse o preço geral do medicamento de referência. O Ozempic, por sua vez, era comercializado entre R$ 975 e R$ 999 por meio do programa próprio da Novo Nordisk.

Quanto poderá custar o genérico?

Considerando o Ozivy com preços entre R$ 452 e R$ 498 fora da promoção, a aplicação da regra que determina uma redução mínima de 35% permite estimar que o genérico da EMS fique entre R$ 293 e R$ 323.

Esse cálculo, porém, ainda não representa um preço oficial. Até o momento do fechamento da reportagem, nem a EMS nem a Germed haviam divulgado os valores definitivos de seus produtos.

Além disso, os registros do genérico da EMS e do Semaclique ainda dependiam da aprovação da CMED para que os medicamentos pudessem chegar às farmácias.

Nem todos os medicamentos podem ser trocados no balcão

A possibilidade de substituir um medicamento por outro é determinada pela Lei nº 9.787/1999 e pela Resolução da Diretoria Colegiada nº 58/2014, da Anvisa.

Quando a receita traz o nome do medicamento de referência, a farmácia pode dispensar o próprio medicamento de referência, seu genérico correspondente ou um similar que já tenha sido reconhecido como intercambiável.

Se a receita for emitida com o nome do genérico, a substituição fica restrita ao próprio genérico ou ao medicamento de referência. Nesse caso, um similar não pode ser dispensado em seu lugar.

Para uma receita que indique um similar intercambiável, podem ser dispensados o próprio similar ou o medicamento de referência.

Quando o médico prescreve apenas o princípio ativo, semaglutida, podem ser dispensados o medicamento de referência ou o genérico.

Uma regra importante é que genérico e similar não podem ser substituídos diretamente um pelo outro. A regulamentação não permite essa troca cruzada.

O médico também pode impedir qualquer substituição ao registrar essa restrição de próprio punho na receita. Quando isso acontece, o farmacêutico deve respeitar a determinação.

O que ainda falta para as novas trocas serem permitidas

Embora os registros dos medicamentos já tenham sido aprovados, as regras de substituição ainda dependem de uma etapa específica. A Anvisa precisa confirmar a intercambialidade de cada produto em uma consulta pública própria, que é atualizada diariamente.

Essa consulta é diferente da simples publicação do registro do medicamento no Diário Oficial.

Nem o genérico da EMS nem o Semaclique aparecem nessa consulta como medicamentos confirmados como intercambiáveis. A ausência é esperada nesse momento, já que essa validação costuma ocorrer semanas depois da aprovação do registro.

Se a intercambialidade for confirmada, a previsão é que o farmacêutico possa substituir o genérico da EMS pelo Ozivy e o Semaclique pelo Ozivy, seguindo as regras estabelecidas.

Essa possibilidade, porém, não se estende automaticamente ao Ozempic ou ao Wegovy. Como o Ozivy foi registrado como medicamento novo, e não como equivalente do Ozempic, a cadeia de substituição automática deve permanecer limitada aos medicamentos da família da semaglutida sintética.

Na prática, portanto, uma pessoa que tenha uma receita de Ozempic não deve esperar receber o genérico na farmácia simplesmente por decisão própria ou por indicação do balconista. A existência de um genérico de semaglutida não significa que ele possa substituir qualquer medicamento que contenha o mesmo princípio ativo.