Nova orientação da OMS reconhece o papel central de terapias como semaglutida, liraglutida e tirzepatida e pressiona governos a repensarem suas políticas públicas em busca da diminuição da obesidade.
Por Caio Batelli
11 dez 2025

Por que isso importa agora?
Pela primeira vez na história, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou uma diretriz específica sobre o uso de medicamentos antiobesidade em adultos. O documento, apresentado no Journal of the American Medical Association (JAMA), reorganiza a forma como o mundo deve encarar o tratamento de uma condição que já atinge mais de 1 bilhão de pessoas.
A medida chega num momento crítico: a obesidade responde por 3,7 milhões de mortes anuais, equivalente a 12% dos óbitos por doenças crônicas não transmissíveis, e, como resultado, deve gerar um impacto econômico superior a US$ 3 trilhões por ano até 2030. Em alguns países, o problema consome até 18% de todo o orçamento de saúde.
O que a nova diretriz realmente diz?
A publicação traz duas recomendações principais, ambas classificadas como condicionais, não pela falta de resultados, mas pelos entraves globais de acesso, custo e infraestrutura.
1. Uso prolongado das terapias
A OMS orienta que os medicamentos sejam usados por seis meses ou mais em pessoas com obesidade.
Mas, na prática, especialistas afirmam que esse período é apenas o mínimo. Estudos recentes mostram que, mesmo após 9 meses de tratamento com semaglutida 2,4 mg/semana ou tirzepatida 15 mg/semana, o reganho de peso ocorre quando o paciente interrompe o uso.
2. Combinação obrigatória com terapia comportamental intensiva
Os medicamentos devem ser acompanhados de:
Ou seja, o remédio entra como ferramenta, não como solução isolada.

Medicamentos GLP-1 passam a ser considerados essenciais
Um dos pontos mais importantes da diretriz é a inclusão das terapias baseadas em GLP-1 na Lista Modelo de Medicamentos Essenciais da OMS para adultos com obesidade e risco cardiometabólico aumentado.
A decisão pressiona governos e indústria farmacêutica a garantir:
Hoje, a capacidade produtiva global atende menos de 10% das pessoas que se beneficiariam dessas terapias.
A OMS reforça: remédio não substitui política pública
A entidade também alerta que, embora os medicamentos representem uma virada de chave no tratamento, eles não substituem ações estruturais.
A diretriz destaca a necessidade de:
Em outras palavras: o problema é biológico, social, cultural, econômico e precisa ser atacado em múltiplas frentes.
Brasil entra no radar do alerta internacional
O texto do JAMA envia um recado direto ao país. Com prevalência crescente de obesidade e sobrepeso, o Brasil vê o impacto se espalhar tanto no SUS quanto na economia.
Como resultado, a publicação escancara a urgência de uma política de Estado robusta, contínua e baseada em evidências, algo que vá além de distribuir medicamentos como Ozempic ou Mounjaro. Essas terapias são importantes, mas representam apenas uma parte da engrenagem.
Apesar de ter histórico de protagonismo em políticas públicas de grande impacto, como o enfrentamento ao tabagismo, HIV e campanhas de vacinação, o país ainda não estruturou uma estratégia nacional compatível com a nova realidade científica da obesidade.
O que está em jogo agora
A diretriz da OMS funciona como um ultimato global. Para o Brasil, ela soa quase como um chamado tardio, mas ainda possível: o tempo de planejar passou; agora é a hora de agir.