Busca por padrões de corpo cada vez mais magros, impulsionada por redes sociais, passarelas de moda e pelo uso estético de medicamentos para emagrecimento, pode trazer impactos ao organismo, incluindo transtornos alimentares, desnutrição e alterações hormonais.
Por Caio Batelli
11 mar 2026

A valorização da magreza extrema voltou a ganhar espaço nas redes sociais e no mundo da moda, reacendendo um debate antigo na área da saúde. Especialistas alertam que a busca por esse padrão corporal pode trazer consequências importantes para o organismo, que vão desde alterações hormonais até problemas ósseos e psicológicos.
Nos ambientes digitais, conteúdos que incentivam dietas restritivas, perda rápida de peso e corpos cada vez mais magros se tornaram frequentes. Fora da internet, o cenário também reflete esse movimento. Um relatório da Vogue Business apontou que, entre quase 9 mil looks apresentados nos desfiles de outono de 2025, apenas 2% eram de tamanho médio e somente 0,3% plus size, números ainda menores que os registrados na temporada anterior. Para especialistas, esse dado reforça que a magreza voltou a ser tratada como tendência dominante no universo da moda.
Outro fator que chama atenção é o crescimento do uso estético de medicamentos originalmente indicados para tratar obesidade e diabetes. As chamadas “canetas emagrecedoras” passaram a ser utilizadas por pessoas que não necessariamente possuem indicação médica para o tratamento, o que tem motivado pesquisas para entender os impactos desse comportamento.
Estudos conduzidos por pesquisadores ligados ao Grupo de Pesquisa em Alimentação, Corporalidades e Cultura (GEPAC) e ao Centro de Medicina do Estilo de Vida da Universidade de São Paulo indicam que esse fenômeno pode confundir a linha entre o que é considerado saudável e o que já representa um problema clínico. Quando o objetivo principal é atingir um padrão corporal muito magro, o medicamento deixa de ser apenas um tratamento médico e passa a funcionar como uma ferramenta para adequar o corpo a expectativas sociais.
Perder peso nem sempre significa melhorar a saúde. Para avaliar possíveis riscos, profissionais da saúde ainda utilizam o Índice de Massa Corporal (IMC) como uma das referências. Em adultos, um IMC abaixo de 18,5 é classificado como baixo peso.
Essa condição pode estar associada a problemas como desnutrição, perda de massa muscular, osteoporose e até aumento do risco de mortalidade. A preocupação é ainda maior quando a perda de peso ocorre sem acompanhamento profissional ou quando está relacionada a distorções de autoimagem.
Nessas situações, o emagrecimento pode ocultar transtornos alimentares ou levar a quadros de desnutrição, inclusive entre pessoas jovens.
Um dos riscos mais importantes ligados à valorização da magreza extrema é o aumento dos transtornos alimentares, como anorexia e bulimia. Estimativas da Associação Brasileira de Psiquiatria indicam que mais de 70 milhões de pessoas convivem com esses transtornos em todo o mundo.
Muitas vezes, esses quadros começam com uma dieta aparentemente comum. A pessoa perde peso, recebe elogios e passa a associar reconhecimento social ao emagrecimento. Com o tempo, o controle da alimentação pode se tornar cada vez mais rígido, evoluindo para um transtorno alimentar.
Esse cenário também se relaciona ao estigma que ainda existe em torno da obesidade. Em diversos contextos sociais, emagrecer passa a ser visto como uma forma de aceitação, especialmente entre adolescentes, que são mais vulneráveis à influência das redes sociais.
Historicamente, os transtornos alimentares eram mais frequentemente diagnosticados em meninas. No entanto, especialistas observam um crescimento relevante entre meninos. Entre eles, a busca muitas vezes está associada ao desejo de alcançar um corpo musculoso, o que também pode esconder comportamentos alimentares disfuncionais e sofrimento psicológico.
O emagrecimento extremo também pode estar relacionado a problemas emocionais. Estudos apontam associação com quadros de ansiedade, depressão, estresse elevado e piora da qualidade do sono.
Em muitos casos, por trás da busca pelo corpo extremamente magro estão sentimentos de inadequação, baixa autoestima e perfeccionismo. A autoestima passa a depender quase exclusivamente da aparência física.
Alguns momentos da vida podem aumentar essa vulnerabilidade. A adolescência e a menopausa, por exemplo, são fases marcadas por mudanças corporais intensas. Quando a pessoa tem dificuldade de lidar com essas transformações, a tentativa de controlar o peso pode surgir como uma forma de recuperar a sensação de controle.
Nesses casos, o emagrecimento deixa de ser apenas uma questão estética e passa a refletir conflitos emocionais mais profundos. Em algumas situações, pode surgir até mesmo a chamada anorexia tardia, que aparece na fase adulta e está relacionada às dificuldades de adaptação às mudanças corporais e identitárias da menopausa.
Especialistas também destacam que o padrão corporal exibido nas redes sociais frequentemente é irreal. Muitas imagens são manipuladas por filtros, edição ou outros recursos, criando um ideal difícil, ou impossível, de alcançar.

Outro problema comum quando a perda de peso ocorre de forma rápida e sem orientação é a desnutrição. Dietas muito restritivas podem provocar deficiência de vitaminas e minerais essenciais para o funcionamento do organismo.
Pesquisas identificaram comportamentos como pular refeições, comer apenas por obrigação ou evitar alimentos para não sentir desconforto após o uso de medicamentos para emagrecer. Esse padrão prejudica não apenas o estado nutricional, mas também a energia física e mental ao longo do tempo.
A restrição exagerada de nutrientes pode provocar sintomas como queda de cabelo, alterações na pele e nas unhas, fraqueza, cansaço, pressão arterial baixa e episódios de hipoglicemia. Problemas gastrointestinais e cáculos na vesícula biliar também podem surgir quando a perda de peso acontece de maneira muito acelerada.
A redução excessiva de gordura corporal também interfere na produção e no equilíbrio de hormônios, especialmente nas mulheres.
O tecido adiposo participa do metabolismo hormonal. Quando ele diminui de forma rápida ou intensa, podem surgir sintomas como alterações de humor, distúrbios do sono, ondas de calor, e perda acelerada de massa óssea.
Na menopausa, esse efeito tende a ser ainda mais evidente. A queda natural dos níveis de estrogênio, combinada ao emagrecimento extremo, pode intensificar sintomas físicos e emocionais e aumentar o risco de osteoporose.
Entre mulheres mais jovens, restrições alimentares prolongadas podem provocar irregularidade menstrual ou até ausência de menstruação, sinal de que o organismo entrou em estado de alerta fisiológico.
Outro efeito relevante da perda rápida de peso é a redução da massa muscular. Estudos recentes indicam que entre 25% e 39% do peso perdido com o uso de medicamentos para emagrecimento pode corresponder à massa livre de gordura, que inclui os músculos.
Essa perda não apenas é uma questão estética. O músculo é um órgão metabolicamente ativo e desempenha papel importante na regulação da glicose e na produção de miocinas, proteínas envolvidas na comunicação entre diferentes órgãos do corpo.
A redução da massa muscular aumenta o risco de quedas, fraturas e aumento da resistência à insulina, condição associada ao desenvolvimento do diabetes.
Além disso, outro impacto importante é a redução do metabolismo basal, a quantidade mínima de energia que o corpo precisa para manter funções vitais em repouso, como respiração, circulação sanguínea e controle da temperatura corporal.
Parte desses danos pode ser revertida com reeducação alimentar, prática de exercícios com carga e, em alguns casos, tratamento medicamentoso. Mesmo assim, especialistas alertam que a recuperação nem sempre é completa quando a magreza extrema se mantém por longos períodos.