Estatinas após os 70 anos podem reduzir risco de infarto e AVC, aponta estudo

Pesquisa com quase 10 mil idosos mostra redução de 30% em eventos cardiovasculares, mas não encontra aumento na sobrevida sem incapacidade.

Por Caio Batelli

4 set 2026

Imagem ilustrativa das estatinas

Começar a tomar estatina depois dos 70 anos pode trazer benefícios para a saúde cardiovascular, mesmo entre pessoas que nunca tiveram infarto, AVC ou outro problema cardíaco. É o que indica um estudo apresentado no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, em Munique, na Alemanha, e publicado simultaneamente no New England Journal of Medicine. Os resultados apontam uma redução importante na ocorrência de eventos cardiovasculares entre idosos que receberam o medicamento.

A descoberta ajuda a responder uma questão que há anos gera dúvidas na medicina: até que ponto vale a pena iniciar o tratamento para colesterol alto em pessoas mais velhas que não apresentam histórico de doença cardiovascular. Até então, havia poucos dados robustos sobre o início das estatinas nessa faixa etária, principalmente entre pessoas com mais de 75 anos.

O tema ganha ainda mais importância diante do envelhecimento da população. Na Austrália, cerca de 21 mil pessoas mais velhas sofrem anualmente um evento cardiovascular grave, como infarto ou AVC. O número ajuda a dimensionar o impacto desses problemas e a importância de encontrar estratégias para preveni-los na velhice.

Menos infarto, AVC e outros eventos cardiovasculares

Os resultados mostram que o uso diário de atorvastatina esteve associado a uma redução significativa nos principais eventos cardiovasculares avaliados. Entre os participantes que receberam o medicamento, 6% apresentaram morte por causa cardiovascular, infarto, AVC ou precisaram passar por um procedimento para desobstruir as artérias do coração.

No grupo que recebeu placebo, a proporção foi de 8,3%. Isso representa uma redução relativa de 30% no risco desses eventos, com intervalo de confiança de 95% entre 18% e 39%.

As estatinas já são amplamente utilizadas para reduzir o risco de infarto e AVC em pessoas que tiveram eventos cardiovasculares ou apresentam alto risco para essas doenças. A novidade está nos resultados observados entre idosos sem diagnóstico prévio de doença cardiovascular, justamente um grupo para o qual ainda existiam dúvidas sobre os benefícios de começar o tratamento.

Até então, a falta de evidências mais sólidas dificultava recomendações mais seguras para o início da estatina nessa idade. Uma das preocupações era que possíveis efeitos adversos pudessem superar os benefícios do tratamento em pessoas mais velhas.

O benefício não apareceu em todos os aspectos

Apesar da proteção cardiovascular observada, o estudo não encontrou diferença estatisticamente significativa na chamada sobrevida livre de incapacidade.

Esse indicador considerou, em conjunto, morte, demência e perda da autonomia física. O resultado ocorreu em 12,8% dos participantes que receberam atorvastatina e em 13,6% daqueles que receberam placebo.

Na prática, isso significa que o medicamento reduziu a ocorrência de problemas cardiovasculares, mas o estudo não demonstrou que esse benefício tenha se convertido em mais tempo de vida sem demência e sem perda da independência física.

Os pesquisadores consideram essa questão ainda em aberto. A ausência de diferença nesse desfecho não é interpretada como uma evidência definitiva de que as estatinas não possam contribuir para uma vida mais longa e independente, mas como um ponto que ainda precisa ser investigado em pesquisas futuras.

Imagem ilustrativa de um corpo com foco no coração e no cérebro, representando o infarto e o AVC.

Efeitos colaterais também foram observados

O uso da atorvastatina esteve relacionado a uma frequência maior de alguns efeitos adversos. Dores musculares, alterações no fígado e problemas relacionados ao controle da glicemia foram mais comuns entre os participantes que receberam o medicamento do que entre aqueles que tomaram placebo.

Por outro lado, a ocorrência de efeitos colaterais graves foi exatamente a mesma nos dois grupos: 2,7%.

Para os pesquisadores, esse resultado reforça a segurança da estatina entre pessoas mais velhas sem histórico de doença cardiovascular. A possibilidade de efeitos adversos mais relevantes é justamente um dos fatores que contribuíam para a cautela na prescrição do medicamento nessa população.

O que os resultados podem mudar

Os dados podem contribuir para futuras atualizações das diretrizes médicas sobre o momento adequado para iniciar o tratamento com estatinas em pacientes idosos. Atualmente, a decisão ainda depende em grande parte da avaliação individual feita pelo médico, diante da falta de evidências fortes para orientar essa escolha.

É importante, porém, observar que os resultados não podem ser aplicados automaticamente a todos os idosos. O estudo não incluiu pessoas que já apresentavam diabetes, demência ou doença cardiovascular conhecida. Portanto, as conclusões dizem respeito a idosos considerados relativamente saudáveis e sem essas condições.

A decisão de iniciar uma estatina continua sendo individual. Expectativa de vida, outras doenças existentes e os demais medicamentos utilizados pelo paciente são alguns dos fatores que precisam ser considerados antes de iniciar o tratamento.

Os resultados, portanto, acrescentam uma evidência importante a favor da proteção cardiovascular com estatinas após os 70 anos, mas não significam que o medicamento deva ser iniciado de forma automática nessa faixa etária. A indicação deve continuar sendo avaliada caso a caso.