Enamed reprova 30% dos cursos de medicina no Brasil

Avaliação nacional aponta desempenho insatisfatório em mais de 100 faculdades, que podem sofrer punições como corte de vagas e suspensão de Fies e Prouni.

Por Caio Batelli

28 jan 2026

Foto da logo do enamed

Uma parcela significativa dos cursos de medicina no Brasil apresentou desempenho abaixo do esperado no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025. De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), 30% dos cursos avaliados tiveram resultados considerados insatisfatórios e poderão sofrer punições, que vão desde restrições de vagas até a suspensão de benefícios como Fies e Prouni.

Ao todo, 351 cursos de medicina participaram do Enamed 2025, incluindo instituições públicas federais, estaduais, municipais e faculdades privadas ligadas ao Sistema Federal de Ensino. Dentre eles, mais de 100 cursos ficaram abaixo do nível mínimo de aprovação, acendendo um alerta sobre a qualidade da formação médica no país.

Como foi o desempenho dos cursos avaliados

Entre os 304 cursos de medicina vinculados ao Sistema Federal de Ensino que participaram da avaliação, os resultados foram distribuídos da seguinte forma:

  • 204 cursos (67,1%) alcançaram as faixas 3, 4 ou 5 do Conceito Enade, consideradas satisfatórias;
  • As 10 melhores notas do país foram:
   
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS UFSCAR São Carlos SP 100,0% 5
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL UFMS Três Lagoas MS 100,0% 5
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO USP São Paulo SP 98,8% 5
UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA UFV Viçosa MG 98,0% 5
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO USP Ribeirão Preto SP 97,9% 5
FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA SANTA CASA SÃO PAULO FCMSCSP São Paulo SP 97,5% 5
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CENTRO OESTE UNICENTRO Guarapuava PR 97,5% 5
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA UFBA Vitória da Conquista BA 97,4% 5
FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DO VALE DO SÃO FRANCISCO UNIVASF Petrolina PE 97,4% 5
FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DO VALE DO SÃO FRANCISCO UNIVASF Paulo Afonso BA 97,3%  
  • 99 cursos (32,6%) ficaram nas faixas 1 e 2, classificadas como insuficientes;
  • 1 curso (0,3%) ficou sem conceito, por ter menos de 10 alunos avaliados.

Dentro do grupo com desempenho negativo, 24 cursos receberam conceito 1 e 83 ficaram com conceito 2, totalizando 107 cursos considerados “reprovados”. No entanto, apenas 99 deles estarão sujeitos às penalidades, já que instituições estaduais e municipais não são diretamente administradas pelo MEC.

Foto ilustrativa de uma faculdade de medicina

Quais punições os cursos podem sofrer

As sanções aplicadas vão variar conforme a nota obtida no exame. Cursos com conceito 2 não poderão ampliar o número de vagas e ficarão impedidos de firmar novos contratos com programas federais de financiamento estudantil, como Fies e Prouni.

Já os cursos que receberam conceito 1 enfrentarão medidas mais severas. Por exemplo a redução do número de vagas a partir do primeiro semestre de 2026, com possibilidade, em casos extremos, de cancelamento do vestibular. Atualmente, a nota máxima do Enamed é 5.

Dos 99 cursos que sofrerão penalidades, o MEC detalhou as seguintes medidas:

  • 8 cursos não poderão receber novas matrículas;
  • 13 cursos terão que reduzir pela metade o número de vagas;
  • 33 cursos deverão cortar 25% das vagas;
  • 45 cursos não poderão aumentar a oferta de vagas.

Além disso, todos esses cursos também ficam suspensos de participar do Fies e de outros programas federais.

Destaque entre universidades públicas e privadas

Os dados mostram um desempenho melhor entre as universidades públicas federais, que concentraram 87,6% das notas nas faixas 4 e 5. As instituições estaduais também apresentaram bom resultado, com 84,7% nessas faixas mais altas.

Em contrapartida, as instituições públicas municipais chamaram atenção negativamente: 87,5% delas ficaram nas faixas 1 e 2, consideradas de baixo desempenho. Já entre as instituições privadas com fins lucrativos, 58,4% obtiveram conceitos baixos, enquanto as chamadas instituições especiais somaram 54,6% nas faixas inferiores.

Divulgação dos resultados e reação do setor

O balanço oficial do Enamed 2025 foi apresentado no dia 19 de janeiro, durante um encontro com a imprensa no Ministério da Educação, em Brasília. O ministro da Educação, Camilo Santana, e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, divulgaram os números.

A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) se manifestou criticamente sobre o uso imediato dos resultados para aplicação de sanções. Em nota, a entidade afirmou ter “profunda preocupação” com a condução do exame e criticou o fato de que, já na primeira edição do Enamed, tenham sido adotadas medidas punitivas severas, como restrição de vagas e impedimento de novos ingressos.

Segundo a Abmes, faltou um período de transição e um diálogo mais estruturado com o setor educacional. A entidade defende que os resultados do Enamed 2025 sejam utilizados como um diagnóstico inicial, servindo de base para o aprimoramento das próximas edições do exame, e não como instrumento imediato de punição.