Canetas para obesidade: Reino Unido investiga risco de pancreatite

Atualização oficial cita casos raros e graves, mas dados recentes indicam que o risco segue baixo quando o uso é feito com acompanhamento médico

Por Caio Batelli

4 fev 2026

Foto do Ozempic e do Mounjaro

O governo do Reino Unido atualizou recentemente as informações oficiais sobre os medicamentos conhecidos como agonistas de GLP-1, popularmente chamados de “canetas para obesidade”, para reforçar o alerta sobre o risco de pancreatite. A atualização menciona inclusive registros de formas graves da doença, como pancreatite necrosante, além de casos fatais.

As informações foram coletadas a partir de notificações de farmacovigilância, ou seja, todos os casos de pancreatite em pessoas que faziam uso de medicações que continham agonistas de GLP-1 foram notificados, sem necessariamente uma relação direta da doença com o uso da medicação.

Por exemplo, pessoas com diabetes e obesidade têm risco aumentado de desenvolver pancreatite.

A perda de peso com ou sem tratamento farmacológico, inclusive após cirurgia bariátrica promovem com frequência a formação de cálculos na vesícula biliar, condição que também aumenta muito o risco de pancreatite.

O que motivou o novo alerta britânico?

No Reino Unido, os agonistas de GLP-1 autorizados para uso incluem dulaglutida, exenatida, liraglutida, semaglutida, medicamento presente no Ozempic, e tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro. As autoridades também informaram que a exenatida não é mais comercializada no país e que a lixisenatida deixou de ter autorização para uso.

O alerta chama atenção para a dificuldade de identificar a pancreatite em fases iniciais, já que sintomas como dor abdominal, náuseas e vômitos podem se confundir com efeitos gastrointestinais comuns do tratamento com agonistas de GLP-1 ou até mesmo com infecções digestivas.

Medicamentos citados e dificuldade no diagnóstico

A orientação oficial é que profissionais de saúde mantenham atenção a esses sinais em pacientes que utilizam esse tipo de medicação e realizem a investigação clínica sempre que necessário. Para os pacientes, a recomendação é procurar atendimento médico imediato caso surja dor abdominal intensa e persistente, especialmente quando a dor se espalha para as costas e vem acompanhada de náuseas e vômitos.

Embora o alerta tenha sido reforçado, o risco de pancreatite já consta nas bulas de medicamentos como Mounjaro, Ozempic e Wegovy. A estimativa apresentada nesses documentos varia entre 0,1 e 1 caso a cada 100 pessoas em uso da medicação.

Imagem ilustrativa de um corpo humano com foco no pâncreas, ilustrando a pancreatite

O que é pancreatite e por que ela preocupa médicos?

A pancreatite é uma inflamação do pâncreas, órgão essencial tanto para a digestão quanto para o controle dos níveis de açúcar no sangue. Segundo dados divulgados pelas autoridades britânicas, entre 2007 e outubro de 2025, a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA) recebeu 1.296 notificações de pancreatite associadas ao uso desses medicamentos.

Pode ter diferentes causas como consumo excessivo de álcool, infecções virais, níveis altos de triglicerídeos, trauma, fibrose cística, doenças autoimunes, tabagismo e causas genéticas.

Os registros incluem diferentes tipos da doença, como pancreatite aguda, crônica, autoimune, hemorrágica, necrosante, subaguda e obstrutiva. Dentro desse total, 19 casos evoluíram para óbito e 24 foram classificados especificamente como pancreatite necrosante, considerada uma das formas mais graves da condição.

Risco descrito em bula e o que mostram os estudos recentes

Especialistas destacam que esses números precisam ser analisados dentro de um contexto mais amplo. Estudos mais recentes de vida real, publicados ao longo de 2026, indicam que os agonistas de GLP-1 apresentam perfil de segurança semelhante ou até melhor quando comparados a pessoas que não utilizam essas drogas. Alguns trabalhos, inclusive, sugerem uma redução do risco de pancreatite.

Esse achado é considerado plausível porque pessoas com obesidade e diabetes, principais grupos que utilizam esses medicamentos, já apresentam, por si só, um risco maior de pancreatite, independentemente do tratamento. Por isso, notificações de eventos adversos são importantes para vigilância, mas devem ser avaliadas em conjunto com estudos controlados, que comparam populações semelhantes e ajudam a esclarecer se existe uma relação direta com o uso do medicamento.

Por que não há motivo para alarme

É fundamental que os profissionais que prescrevam os medicamentos a base agonistas de GLP-1 tenham profundo conhecimento das ações metabólicas e riscos do uso da medicação.

Cada paciente deve ser avaliado individualmente e todas as variáveis devem ser levadas em conta.

Não podemos esquecer que esta é uma classe de medicamento que tem mudado a história de vida de pessoas com obesidade e diabetes, reduzindo morte por todas as causas e melhorando indiscutivelmente a qualidade de vida desses pacientes.

A avaliação final é que não há motivo para alarme quando essas medicações são utilizadas dentro das indicações corretas, com acompanhamento médico e aquisição por canais regulares, que garantam procedência e segurança. O acompanhamento profissional é fundamental para orientar dose, alimentação, possíveis efeitos colaterais e para ajudar o paciente a reconhecer sinais de alerta e decidir quando uma investigação mais aprofundada é necessária.