Condição ainda pouco conhecida pode ser confundida com o diabetes tipo 1 e levar a tratamentos inadequados.
Por Caio Batelli
2 out 2026

O Brasil vai iniciar o rastreamento de casos de diabetes tipo 5, uma condição pouco conhecida e relacionada à deficiência nutricional. A iniciativa foi confirmada pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) nesta quarta-feira (26), durante um congresso realizado no Rio de Janeiro, e representa uma medida inédita no país e, em grande parte, também no cenário internacional.
A primeira etapa da iniciativa será concentrada nas regiões Norte e Nordeste. A escolha está relacionada à maior concentração, nesses locais, de pessoas em situação de insegurança alimentar e desnutrição, fatores associados ao desenvolvimento do diabetes tipo 5.
A doença pode ser confundida com o diabetes tipo 1, principalmente porque costuma aparecer em pessoas jovens e muito magras. A possibilidade de que pacientes com diabetes tipo 5 estejam sendo tratados atualmente como se tivessem o tipo 1 é uma das preocupações que motivaram o rastreamento. O tratamento incorreto pode aumentar os riscos para esses pacientes.
Embora tenha sido identificado ainda na década de 1950, o diabetes tipo 5 continua pouco conhecido. A condição voltou a receber atenção no ano passado, depois de uma reunião de especialistas realizada na Índia. O nome diabetes tipo 5 foi adotado de forma unânime por ser considerado diferente dos outros tipos catalogados até então.
A condição ocorre principalmente em pessoas muito magras, geralmente com menos de 30 anos, que apresentam uma necessidade menor de reposição de insulina. Essas características podem fazer com que o quadro seja interpretado como diabetes tipo 1, especialmente quando a pessoa também é jovem, tem baixo peso e apresenta histórico familiar da doença.
O diabetes tipo 2, por outro lado, é o tipo mais frequente no mundo e costuma estar relacionado à resistência à insulina desenvolvida ao longo da vida e a condições associadas, como a obesidade.
No diabetes tipo 5, não há resistência à insulina. A condição também não provoca cetoacidose, uma emergência que pode ocorrer quando a falta de insulina impede que a glicose entre nas células. Nesse caso, o problema está relacionado à deficiência das células responsáveis pela produção do hormônio, consequência da deficiência nutricional.

A diferença no funcionamento da doença é importante para o tratamento. Quando uma pessoa com diabetes tipo 5 é tratada como se tivesse diabetes tipo 1, pode receber uma quantidade de insulina muito maior do que a necessária.
O excesso de insulina pode provocar hipoglicemia, já que o hormônio estimula a entrada de glicose nas células e reduz a liberação de açúcar pelo fígado. Em situações graves, uma queda acentuada da glicemia pode provocar confusão, convulsões, perda de consciência, coma e até morte.
O risco é especialmente relevante quando a insulina é administrada sem que exista uma necessidade adequada de reposição do hormônio.
Ainda existem poucas evidências sobre a possibilidade de remissão do diabetes tipo 5. Entretanto, o controle da glicemia pode ser retomado com o uso de insulina associado a mudanças na alimentação do paciente.
A expectativa é que o rastreamento e a coleta de informações sobre os casos permitam desenvolver novas formas de tratamento para o diabetes tipo 5. Além da Sociedade Brasileira de Diabetes, a implementação envolve a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), a Federação Internacional de Diabetes (IDF) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Também estão previstos estudos com participação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A iniciativa ocorre em um cenário no qual o diabetes já atinge milhões de pessoas no país. Segundo estimativa da Federação Internacional de Diabetes, o Brasil tem 16,6 milhões de adultos com a doença. O diabetes tipo 1 afeta aproximadamente 500 mil pessoas de todas as idades, enquanto mais de 90% dos casos são de diabetes tipo 2, de acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes.