Anvisa aprova semaglutida no tratamento de gordura no fígado

A aprovação do Wegovy para MASH marca um avanço histórico no tratamento da gordura no fígado associada à obesidade e à disfunção metabólica.

Por Caio Batelli

17 dez 2025

Imagem do Wegovy, caneta que contém semaglutida 2,4 mg

A semaglutida, já conhecida por seu papel no tratamento da obesidade, agora avança para um território ainda mais sensível da endocrinologia e da hepatologia: a gordura no fígado com inflamação. A Anvisa aprovou oficialmente o uso do Wegovy (semaglutida 2,4 mg) para adultos com esteatohepatite associada à disfunção metabólica (MASH), desde que apresentem fibrose moderada a avançada e não tenham cirrose hepática.

Na prática, isso significa um passo importante no combate a uma doença silenciosa, progressiva e altamente ligada à epidemia de obesidade, diabetes e resistência à insulina.

Por que essa aprovação é tão relevante?

Segundo especialistas, a liberação da semaglutida para essa indicação representa uma virada de chave. Anteriormente, não havia um tratamento farmacológico com evidência robusta capaz de atuar diretamente na inflamação e na fibrose hepática associadas à disfunção metabólica.

Hepatologistas destacam que a doença está intimamente ligada à obesidade, dislipidemia e diabetes, ou seja, tratar o metabolismo é parte essencial da estratégia. Nesse contexto, a semaglutida surge não apenas como uma opção para controle de peso, mas como uma ferramenta com potencial de reduzir complicações graves, como cirrose e câncer de fígado.

Para entidades médicas da área, o momento é histórico: é a primeira vez que um agonista do receptor de GLP-1 demonstra, em estudo de fase avançada, capacidade de reduzir gordura e fibrose hepática de forma consistente.

O que mostram os dados do estudo

A decisão da Anvisa foi baseada no estudo de fase 3 ESSENCE, que avaliou mais de 1.200 adultos com MASH e fibrose hepática nos estágios 2 ou 3. Os participantes receberam semaglutida 2,4 mg ou placebo, além do tratamento padrão, ao longo de até 240 semanas.

Após 72 semanas, os resultados chamaram atenção:

  • 63% dos pacientes tratados com semaglutida apresentaram resolução da inflamação hepática, contra 34,3% no grupo placebo;
  • 37% tiveram melhora no estágio da fibrose, frente a 22,4% no grupo controle;
  • Em 33% dos casos, houve resolução da inflamação e melhora da fibrose ao mesmo tempo.

A segunda etapa do estudo ainda está em andamento e busca avaliar se o uso prolongado da medicação reduz eventos clínicos graves relacionados ao fígado. Os resultados finais são esperados para 2029.

Foto ilustrativa de uma pessoa com dor no fígado

Uma doença comum, grave e muitas vezes ignorada

A gordura no fígado, também chamada de esteatose metabólica, afeta cerca de 30% da população mundial. Entre pessoas com excesso de peso, o número assusta ainda mais: oito em cada dez convivem com o problema. Em muitos casos, a condição evolui para inflamação crônica, fibrose e, nos estágios mais avançados, cirrose hepática e necessidade de transplante.

O grande problema é que a MASH costuma não dar sinais no começo. Quando os sintomas aparecem, o fígado muitas vezes já sofreu danos significativos. Além disso, o impacto não se limita ao órgão: pacientes com MASH apresentam maior risco cardiovascular, com aumento de infarto, AVC e mortalidade em comparação à população geral.

O papel da semaglutida além da perda de peso

A semaglutida é um análogo do GLP-1, hormônio envolvido no controle do apetite, da glicemia e do metabolismo energético. Inicialmente desenvolvida para o tratamento do diabetes, a substância ganhou destaque pela eficácia na perda de peso e no controle metabólico.

No Brasil, o Wegovy já é indicado para adultos com IMC ≥ 30 kg/m², ou ≥ 27 kg/m² na presença de comorbidades, além de adolescentes a partir de 12 anos em critérios específicos. Agora, com a nova aprovação, o medicamento amplia seu impacto clínico, especialmente entre pacientes com obesidade e complicações hepáticas associadas.

O que muda na prática clínica

Para endocrinologistas, a aprovação abre espaço para uma abordagem mais integrada do paciente metabólico, tratando peso, inflamação, risco cardiovascular e fígado ao mesmo tempo. Ainda assim, especialistas reforçam que a medicação deve ser usada como complemento, e não substituto de mudanças no estilo de vida, como alimentação adequada e atividade física.

No fim das contas, a semaglutida deixa de ser apenas um “remédio para emagrecer” e passa a ocupar um papel estratégico no tratamento de uma das doenças metabólicas mais subestimadas da atualidade.