Câncer de intestino, excesso de peso e canetas emagrecedoras: o que as evidências mostram

Pesquisas apontam relação entre excesso de peso, diabetes e o cancêr de intestino, enquanto medicamentos à base de GLP-1 ainda dividem as evidências científicas.

Por Caio Batelli

20 ago 2026

Imagem ilustrativa de um corpo com foco no intestino

Diabetes tipo 2 e obesidade podem estar relacionados a um risco maior de câncer colorretal, especialmente em um cenário de aumento dos casos entre adultos jovens. Ao mesmo tempo, medicamentos conhecidos como canetas emagrecedoras, como os agonistas de GLP-1, vêm sendo investigados por uma possível relação com a redução desse risco. As evidências mais recentes, porém, ainda apresentam resultados diferentes entre si.

Obesidade pode aumentar risco de câncer colorretal

Uma revisão médica que reuniu 66 estudos e mais de 83 milhões de pessoas estimou que a obesidade está associada, em média, a um aumento de 36% no risco de câncer colorretal. Dependendo da pesquisa analisada, essa elevação variou de 25% a 57%.

O diabetes tipo 2 também pode acrescentar risco. Dados de mundo real do UK Biobank, apresentados no Congresso Europeu de Obesidade de 2025, indicaram que pessoas com diagnóstico recente da doença apresentaram maior probabilidade de desenvolver cânceres relacionados à obesidade, incluindo o câncer colorretal. A associação permaneceu mesmo quando o peso corporal foi considerado.

A relação entre essas condições e o câncer ainda não está completamente esclarecida. Entre os possíveis mecanismos estão a inflamação crônica de baixo grau provocada pelo tecido adiposo e alterações no microbioma intestinal. Também são investigados o excesso de insulina circulante, que pode estimular vias relacionadas ao crescimento celular por meio do IGF-1, e alterações hormonais provocadas pelo tecido adiposo. Nenhum desses mecanismos, isoladamente, explica toda a relação observada.

Rastreamento ganha importância

Diante dessa associação, o acompanhamento de pessoas com diabetes e obesidade também envolve atenção à prevenção e à identificação precoce do câncer colorretal. A doença pode permanecer silenciosa até fases mais avançadas, o que torna o rastreamento uma ferramenta importante.

Entre os principais exames estão a pesquisa de sangue oculto nas fezes, atualmente realizada por meio do teste imunoquímico fecal, conhecido como FIT, e a colonoscopia. O primeiro é rápido, de baixo custo e não invasivo. Já a colonoscopia é considerada o exame padrão-ouro e permite identificar e retirar lesões pré-cancerígenas antes que possam evoluir para um tumor.

No Brasil, o Ministério da Saúde, por meio do Instituto Nacional de Câncer, está finalizando a primeira diretriz nacional para o rastreamento do câncer colorretal no Sistema Único de Saúde. A proposta considera o teste imunoquímico de fezes a cada dois anos para adultos de 50 a 75 anos, assintomáticos e sem fatores adicionais de risco. Quando o resultado for positivo, a orientação prevê a realização de colonoscopia.

Em agosto de 2026, o governo incorporou o FIT à tabela do SUS para utilização na atenção básica. Sociedades médicas, por sua vez, defendem que o rastreamento por colonoscopia seja discutido a partir dos 45 anos, faixa que já é adotada como padrão nos Estados Unidos desde 2021, quando a idade inicial foi reduzida de 50 para 45 anos diante do aumento dos casos entre pessoas mais jovens.

Para pessoas com diabetes ou obesidade, a avaliação sobre quando iniciar o rastreamento deve ser discutida individualmente com o médico, mesmo enquanto as diretrizes formais continuam voltadas à população considerada de risco padrão.

Foto das canetas emagrecedoras de GLP-1

Canetas emagrecedoras entram em investigação

Os medicamentos agonistas de GLP-1, entre eles a semaglutida, também passaram a chamar atenção nas pesquisas sobre câncer colorretal. Estudos observacionais encontraram uma possível associação entre o uso dessas medicações e um menor risco da doença, com reduções de até 46% quando comparadas à insulina.

Outro estudo divulgado no Congresso Americano de Oncologia em 2026, com mais de 281 mil pessoas a partir de dados do TriNetX, apontou uma probabilidade 36% menor de câncer colorretal entre usuários de GLP-1 em comparação com pessoas que utilizavam aspirina. Os pesquisadores também diferenciaram o risco relativo do benefício absoluto: seria necessário tratar mais de 2 mil pessoas para evitar um único caso de câncer colorretal. Na prática, isso representa um benefício individual pequeno, embora possa ter relevância quando considerado em uma população maior.

Os resultados, porém, não são uniformes. Uma revisão de 68 ensaios controlados, envolvendo mais de 207 mil participantes, encontrou um sinal diferente. Nesse levantamento, a semaglutida injetável na dose mais alta, de 2,4 mg por semana, apareceu associada a uma maior ocorrência de tumores colorretais. A relação aumentou conforme a dose, mas os próprios autores classificaram o resultado como um sinal de risco que precisa ser confirmado, e não como uma comprovação de que o medicamento cause câncer.

Outra análise, que reuniu 90 estudos e mais de 120 mil participantes, não identificou associação entre os medicamentos e o câncer colorretal em nenhuma direção. Por isso, as evidências disponíveis ainda não permitem estabelecer uma conclusão definitiva sobre o efeito dos agonistas de GLP-1 sobre o risco da doença.

O que acontece em quem já tem câncer?

As pesquisas também começaram a avaliar se os agonistas de GLP-1 poderiam ter algum impacto entre pessoas que já receberam diagnóstico de câncer colorretal. Um trabalho da Universidade da Califórnia, publicado na revista Cancer Investigation, encontrou uma associação entre o uso desses medicamentos e uma mortalidade em cinco anos quase pela metade entre pacientes com câncer de cólon.

Outro estudo publicado em 2026, utilizando dados do TriNetX, também encontrou um sinal semelhante entre pacientes com câncer colorretal nos estágios I a III da doença.

Apesar desses resultados, ainda não há evidências suficientes para recomendar os agonistas de GLP-1 como tratamento do câncer colorretal ou como estratégia para evitar que o tumor volte. Os estudos são observacionais e retrospectivos, o que significa que estão sujeitos a possíveis vieses e não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito.

Por enquanto, a decisão sobre iniciar ou manter um medicamento dessa classe em uma pessoa que já tem câncer colorretal deve ser individualizada e acompanhada pelo oncologista. Novas pesquisas ainda serão necessárias para determinar se os sinais observados representam um benefício real ou se podem desaparecer quando mais evidências estiverem disponíveis.