Pesquisa identificou um aumento no risco de queda de cabelo entre usuários de medicamentos à base de GLP-1, embora o efeito seja incomum e, na maioria dos casos, temporário.
Por Caio Batelli
30 jul 2026

Medicamentos à base de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, revolucionaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 nos últimos anos. Agora, um estudo publicado no British Medical Journal identificou que esses medicamentos também podem estar associados a um risco maior de queda de cabelo, embora os pesquisadores reforcem que esse efeito costuma ser temporário e reversível.
A descoberta ajuda a explicar uma situação cada vez mais frequente nos consultórios. Pessoas que alcançaram uma perda significativa de peso com as chamadas canetas emagrecedoras passaram a relatar um aumento da queda de fios, percebido durante o banho, ao pentear os cabelos ou até mesmo no travesseiro.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, que analisaram prontuários eletrônicos de mais de 50 mil pessoas com diabetes tipo 2 tratadas entre 2019 e 2024. Os pesquisadores compararam pacientes que utilizavam medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 com outros que faziam tratamento com duas classes tradicionais de antidiabéticos orais: os inibidores de SGLT-2 e os inibidores de DPP-4.
Os resultados mostraram que os usuários de GLP-1 apresentaram um risco 37% maior de desenvolver queda de cabelo em comparação com quem utilizava inibidores de SGLT-2. Quando a comparação foi feita com pacientes tratados com inibidores de DPP-4, esse aumento chegou a 68%.
Apesar dos percentuais chamarem atenção, os pesquisadores destacam que o risco absoluto permanece baixo. Foram registrados cerca de 6,9 casos de queda de cabelo para cada mil pessoas tratadas durante um ano com medicamentos da classe GLP-1, contra 5 casos entre usuários de inibidores de SGLT-2 e 3,9 entre aqueles que utilizavam inibidores de DPP-4. Na prática, isso representa de duas a três pessoas a mais, a cada mil pacientes tratados por ano.
Mesmo com esse possível efeito adverso, os benefícios já conhecidos dos agonistas de GLP-1 para o controle do diabetes e da obesidade continuam superando os riscos identificados até o momento.
Segundo o estudo, o problema mais frequentemente relacionado aos agonistas de GLP-1 é o eflúvio telógeno, um tipo de queda difusa em que um número maior de fios entra precocemente na fase de queda do ciclo capilar. Como o folículo piloso não é destruído, os cabelos tendem a voltar a crescer na maioria dos casos.
Os pesquisadores também citam uma revisão sistemática que reuniu dados de 24 estudos sobre emagrecimento e queda de cabelo. A análise mostrou que quanto maior a perda de peso, maior tende a ser a chance de desenvolver eflúvio telógeno. Entre os medicamentos avaliados, a tirzepatida apresentou a associação mais frequente com esse tipo de alteração capilar, justamente por estar ligada às maiores perdas de peso observadas entre os agonistas de GLP-1.
O estudo destaca ainda que a queda de cabelo não é um efeito exclusivo dessas medicações. Perdas rápidas de peso provocadas por dietas muito restritivas ou por cirurgias bariátricas também costumam desencadear o mesmo quadro. Isso acontece porque o organismo interpreta o emagrecimento acelerado como um estresse fisiológico, levando um número maior de fios a deixar a fase de crescimento.
Outro ponto importante levantado pelos pesquisadores é que a rápida perda de peso pode favorecer deficiências nutricionais capazes de afetar diretamente a saúde dos cabelos.
Entre os nutrientes citados estão ferro e zinco, fundamentais para o ciclo capilar. Além disso, a diminuição do apetite provocada pelos agonistas de GLP-1 pode reduzir a ingestão de alimentos e favorecer carências de biotina, vitamina D e vitamina B12.
Com isso, a queda de cabelo observada em pessoas que utilizam esses medicamentos pode resultar da combinação de diferentes fatores: um possível efeito da própria medicação, o estresse causado pelo emagrecimento acelerado e deficiências nutricionais que nem sempre são identificadas durante o tratamento.

Embora não exista uma forma de eliminar completamente esse risco, o estudo aponta algumas medidas que podem ajudar a minimizar a perda de cabelo e favorecer a recuperação dos fios.
Perder peso de forma gradual, dentro das metas definidas pelo médico, reduz o estresse fisiológico associado ao eflúvio telógeno. Também é importante manter uma ingestão adequada de proteínas e calorias, mesmo diante da redução do apetite, já que a proteína é o principal componente da queratina, responsável pela estrutura dos fios.
Quando exames laboratoriais identificam deficiência de ferro, zinco, vitamina D ou vitamina B12, a reposição orientada pelo médico é a intervenção com melhores evidências para interromper a queda relacionada a essas carências.
Nos casos em que a perda de cabelo persiste por vários meses, o minoxidil tópico pode ser indicado por ser um dos tratamentos dermatológicos mais estudados para o eflúvio telógeno e também para a alopecia androgenética.
O estudo também recomenda evitar procedimentos químicos agressivos, exposição excessiva ao calor e escovação intensa enquanto os fios estiverem mais frágeis, reduzindo a quebra dos cabelos.
Além disso, suplementos nutricionais que combinam biotina, zinco, vitamina D, colágeno hidrolisado, ácido hialurônico e outros nutrientes voltados à saúde capilar podem ser considerados, desde que haja avaliação médica ou nutricional para verificar se eles são realmente necessários em cada caso.