Implante de semaglutida com duração de até um ano avança em estudos para diabetes e obesidade

Tecnologia em desenvolvimento utiliza um dispositivo subcutâneo para liberar o medicamento continuamente e pode facilitar a adesão ao tratamento.

Por Caio Batelli

16 jul 2026

Foto ilustrativa de um implante na mão de um médico

Os medicamentos à base de semaglutida, como Ozempic e Wegovy, revolucionaram o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade nos últimos anos. Agora, pesquisadores trabalham em uma nova alternativa que pode reduzir ainda mais a necessidade de aplicações frequentes: um implante subcutâneo capaz de liberar o medicamento continuamente por até um ano após uma única aplicação.

A tecnologia está sendo desenvolvida pela biofarmacêutica americana Vivani Medical em parceria com a farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk. O dispositivo, denominado NPM-139, é um implante miniaturizado projetado para liberar semaglutida, princípio ativo presente no Ozempic e no Wegovy, de forma contínua durante aproximadamente 12 meses.

A proposta surge diante de um desafio comum no tratamento dessas doenças. Segundo informações divulgadas pela própria Vivani Medical, cerca de metade das pessoas com diabetes e obesidade não consegue manter o tratamento medicamentoso conforme o recomendado, realidade que afeta tanto pacientes que utilizam medicamentos orais quanto aqueles que fazem uso de aplicações.

No caso dos agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida, a adesão pode ser prejudicada por fatores como os efeitos gastrointestinais, o desconforto causado pelas aplicações semanais e a necessidade de seguir o tratamento por longos períodos. Com o implante, a expectativa é diminuir essas dificuldades por meio de uma única aplicação com efeito prolongado.

Sistema busca manter níveis estáveis do medicamento

O NPM-139 utiliza uma tecnologia própria da Vivani, chamada NanoPortal, desenvolvida para liberar medicamentos de maneira gradual e previsível durante vários meses. Um dos principais desafios é justamente adaptar a semaglutida a esse sistema, já que o medicamento pertence à classe dos peptídeos, moléculas grandes e solúveis em água que historicamente apresentam dificuldades para permanecer estáveis em plataformas de liberação prolongada.

A empresa afirma que o objetivo é manter um perfil farmacocinético mais uniforme ao longo do tratamento, evitando grandes oscilações na concentração do medicamento. Isso também pode reduzir o risco de liberações repentinas da substância, situação que favorece o aparecimento de efeitos colaterais.

Os resultados que embasam o desenvolvimento do implante tiveram início com o estudo LIBERATE-1, primeiro teste em humanos da plataforma NanoPortal. A pesquisa avaliou um implante contendo exenatida, outro medicamento da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, em 24 voluntários australianos com sobrepeso ou obesidade.

Segundo os dados divulgados pela companhia, o dispositivo apresentou perfil favorável de segurança e tolerabilidade, sem registro de eventos adversos graves e sem sinais de liberação abrupta do medicamento, um aspecto considerado importante para confirmar o funcionamento da tecnologia de liberação contínua.

Além dos testes em humanos com exenatida, estudos pré-clínicos realizados com roedores mostraram que um único implante de NPM-139 foi capaz de manter uma redução de peso próxima de 20% em comparação ao grupo controle por mais de um ano. De acordo com a empresa, esse foi o período mais longo já registrado para esse tipo de dispositivo. Apesar do resultado considerado promissor, os pesquisadores ressaltam que os dados foram obtidos em animais e ainda não permitem concluir que o mesmo efeito ocorrerá em pessoas.

Foto da caneta de semaglutida

Primeiros testes com o implante de semaglutida em humanos já têm previsão

A próxima etapa será o estudo clínico SLIM-1, que será conduzido na Austrália com 20 adultos com sobrepeso ou obesidade. A pesquisa irá comparar o implante de semaglutida com aplicações semanais de Wegovy em baixa dose.

Nesta fase, o objetivo principal não será avaliar a eficácia para perda de peso, mas analisar aspectos como segurança, farmacocinética e tolerabilidade do dispositivo em humanos. Os primeiros resultados são esperados até o fim de 2026.

Apesar das expectativas em torno da nova tecnologia, o NPM-139 ainda está em fase inicial de desenvolvimento clínico. Uma eventual aprovação para uso no Brasil ou em outros países dependerá da conclusão bem-sucedida das próximas etapas de pesquisa, incluindo fases clínicas que ainda não foram iniciadas, além da avaliação de órgãos reguladores como a Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos, e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Brasil.

Mesmo que os estudos apresentem resultados positivos, o processo de aprovação costuma levar vários anos. Por isso, ainda é cedo para estimar o impacto que o implante poderá ter no tratamento do diabetes e da obesidade. A adoção da tecnologia dependerá da confirmação de sua eficácia em estudos mais amplos e da aceitação de pacientes e profissionais de saúde em relação ao procedimento minimamente invasivo, que ainda não foi avaliado em larga escala.