Anvisa alerta para possíveis danos ao fígado ligados ao uso de cúrcuma em cápsulas e medicamentos

Produtos terão novas advertências nas bulas e rótulos, enquanto suplementos passam por reavaliação técnica.

Por Caio Batelli

1 abr 2026

Foto de cápsulas e da planta de cúrcuma

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta de farmacovigilância direcionado a pessoas que utilizam medicamentos ou suplementos alimentares à base de cúrcuma, também conhecida como açafrão. A medida vem após investigações internacionais identificarem ocorrências raras, porém potencialmente graves, de inflamação e lesões no fígado associadas ao consumo desses produtos em formatos concentrados, como cápsulas e extratos.

De acordo com as análises consideradas pela agência brasileira, há registros de suspeita de toxicidade hepática em indivíduos que fizeram uso de produtos contendo cúrcuma ou seus compostos ativos, os chamados curcuminóides. O risco parece estar mais relacionado a formulações que aumentam significativamente a absorção da curcumina no organismo, elevando sua concentração para níveis muito acima do que seria obtido pela alimentação comum.

O tema não é exclusivo do Brasil. Autoridades sanitárias de países como Itália, Austrália, Canadá e França já haviam emitido comunicados semelhantes após identificarem casos de problemas hepáticos ligados ao consumo desses suplementos. Em algumas situações, houve retirada de produtos do mercado e exigência de alertas mais claros nos rótulos.

Na França, por exemplo, a ANSES (Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, do Meio Ambiente e do Trabalho) registrou dezenas de notificações de efeitos adversos relacionados ao uso de suplementos com cúrcuma ou curcumina. Entre os quadros observados estavam casos de hepatite dentro do sistema de monitoramento de segurança alimentar.

Diferença entre uso culinário e suplementação

Apesar do alerta, a Anvisa reforça que o consumo da cúrcuma na alimentação cotidiana não representa risco conhecido. O uso do tempero em pó, comum na culinária, é considerado seguro e não está incluído nas preocupações levantadas pela agência, já que não há evidências que relacionem esse tipo de consumo a danos ao fígado.

A principal diferença está na concentração e na forma de absorção. Enquanto na alimentação a ingestão é moderada, suplementos e medicamentos podem conter doses muito mais elevadas e tecnologias que aumentam a biodisponibilidade da substância, potencializando seus efeitos no organismo.

Diante desse cenário, o alerta da Anvisa traz orientações específicas não apenas para consumidores, mas também para profissionais de saúde e fabricantes. Isso reforça a importância do uso consciente e do acompanhamento adequado.

Foto da sede da Anvisa

Sintomas de atenção e orientações

Alguns sinais podem indicar a necessidade de avaliação médica em pessoas que utilizam produtos com cúrcuma em altas concentrações. Entre eles estão pele ou olhos amarelados (icterícia), urina escura, cansaço intenso sem causa aparente, além de náuseas e dores abdominais.

Caso esses sintomas apareçam, a recomendação é interromper imediatamente o uso do produto e buscar orientação médica. Também é importante registrar qualquer suspeita de efeito adverso nos sistemas oficiais, como o VigiMed, voltado a medicamentos, e o e-Notivisa, utilizado para suplementos alimentares.

Medidas adotadas e próximos passos

Como parte das ações preventivas, a Anvisa determinou a atualização das bulas de medicamentos como Motore® e Cumiah®, que passarão a incluir avisos de segurança mais claros sobre possíveis riscos.

No caso dos suplementos alimentares, será iniciado um processo de reavaliação do uso da cúrcuma e de seus derivados. Além disso, os fabricantes deverão incluir advertências obrigatórias nos rótulos, informando sobre a possibilidade de efeitos adversos, especialmente relacionados ao fígado.

A medida reforça a importância da vigilância contínua sobre produtos amplamente utilizados e considerados naturais, mas que, em determinadas condições, podem trazer riscos à saúde.