Estudo com mais de 300 mil adultos mostra que o Índice de Massa Corpórea (IMC) sozinho deixa escapar casos importantes de obesidade e disfunção de órgãos.
Por Caio Batelli
3 dez 2025

A obesidade sempre foi definida principalmente pelo IMC, mas um novo modelo, proposto por especialistas internacionais, integra medidas como circunferência da cintura e razão cintura-altura, e isso pode mudar profundamente como entendemos saúde metabólica.
O estudo “Implications of a New Obesity Definition Among the All of Us Cohort” publicado no site “JAMA Network” com mais de 300 mil participantes, avaliou o impacto dessa nova forma de classificação.
O que é a nova definição de obesidade?
O Índice de Massa Corpórea (IMC) é calculado pela equação: Peso (kg) / (Altura (m) x Altura (m))
A definição tradicional considera obesidade quando o IMC ≥ 30 kg/m².
A nova proposta inclui outros indicadores de obesidade, acima de tudo gordura abdominal, considerada mais perigosa para o coração e para o metabolismo.
Segundo a definição ampliada, alguém pode ser classificado como obeso quando apresenta:
Essas medidas incluem, circunferência da cintura, relação cintura-quadril e relação cintura-altura.
Segundo o estudo, isso captura pessoas com acúmulo de gordura central que antes não eram identificadas apenas pelo IMC.
O que a pesquisa encontrou?
O estudo avaliou 301.026 adultos com todas as medidas necessárias.
Os resultados mostram que:
• Pela definição tradicional, 42,9% tinham obesidade.
• Pela nova definição, o número sobe para 68,6%, um aumento relativo de aproximadamente 60%.
• 25,9% das pessoas passaram a ser classificadas como obesas somente pelas medidas antropométricas, apesar de não terem IMC na faixa de obesidade.
• Dentro desse grupo, 22,3% tinham IMC considerado normal ou abaixo do normal, mas apresentavam gordura abdominal elevada.
Isso mostra que muitas pessoas com risco metabólico significativo não estavam sendo identificadas antes.
Quem foi mais impactado pela nova definição?
Alguns grupos tiveram aumento especialmente expressivo na prevalência:
• Pessoas asiáticas: de 27,0% para 51,4%.
• Homens: em geral apresentam maior proporção de obesidade baseada apenas em medidas antropométricas que em IMC.
• Idosos: prevalência chega a 78,3% em pessoas com 70 anos ou mais.
A gordura abdominal tende a aumentar com a idade, o que explica parte desse crescimento.
O que é obesidade clínica?
Além de classificar quem tem excesso de gordura, a nova abordagem também considera se há consequências para órgãos ou função física.
Assim, há dois tipos, a obesidade pré-clínica que é o excesso de gordura, mas sem sinais de prejuízo à saúde e a obesidade clínica, quando já existe alguma disfunção, como hipertensão, apneia do sono, alterações metabólicas ou limitação funcional.
No estudo, 36,1% da população apresentava obesidade clínica, isso representa 52,7% de todas as pessoas classificadas como obesas pela nova definição. Ou seja, mais da metade dos obesos já tem algum impacto mensurável na saúde.

A nova definição melhora a identificação de riscos?
Sim. As análises mostraram que a nova abordagem captura melhor quem realmente tem maior risco futuro.
Quando comparados a pessoas sem obesidade, aqueles que apresentavam IMC elevado associado a medidas antropométricas aumentadas tiveram uma probabilidade 3,31 vezes maior de apresentar algum tipo de disfunção orgânica. Já entre os indivíduos classificados como obesos apenas pelas medidas antropométricas, mesmo sem IMC elevado, o risco também aumentou de forma significativa, sendo 1,76 vez maior.
Também foram observados maiores riscos de desenvolvimento de diabetes, eventos cardiovasculares e mortalidade por todas as causas
O estudo mostra que a nova definição consegue diferenciar melhor os grupos que precisam de maior atenção clínica.
O que isso significa para tratamentos?
Pelas regras tradicionais, usam-se critérios baseados no IMC para indicar medicamentos, como:
• IMC ≥ 30
• IMC ≥ 27 com comorbidades
Mas segundo o estudo:
• 22,2% das pessoas que têm obesidade clínica pela nova definição não seriam elegíveis para tratamento farmacológico pelos critérios atuais.
• Por outro lado, muitas pessoas que hoje são elegíveis por IMC não têm obesidade clínica segundo a definição ampliada.
Isso mostra uma possível necessidade de revisar critérios de acesso a medicamentos e tratamentos, garantindo que quem realmente apresenta maior risco seja priorizado.
O que isso muda para quem está lendo?
Mesmo com um IMC considerado “normal”, alguém pode apresentar gordura abdominal elevada, e isso pode aumentar o risco de diabetes e doenças cardiovasculares.
Por isso, medidas simples como circunferência da cintura podem ser tão importantes quanto o peso na balança.
A nova definição, se adotada amplamente, pode ajudar médicos a identificar riscos mais cedo e orientar intervenções mais eficazes.
O que ainda falta saber?
O estudo chama atenção para alguns pontos:
• A aplicação prática da nova definição ainda é complexa.
• Pode ser necessário desenvolver ferramentas clínicas específicas (como calculadoras automáticas).
• Ainda não se sabe se o tratamento baseado nessa nova classificação melhora os desfechos a longo prazo.
• Também é preciso avaliar como isso impactaria custos em sistemas públicos e privados.
Em resumo, não basta olhar apenas o IMC.
Medidas de cintura e distribuição de gordura são fundamentais para avaliar saúde metabólica, e podem destacar riscos que até agora poderiam passar despercebidos.